Dos incontáveis males que o politicamente correto traz a sociedade, poucos se comparam com a destruição da inteligência – já muito atacada pela educação em massa e, especialmente, com a preferência pelo ensino não cognitivo visando à transformação social. E como o politicamente correto contribui com esse ataque à inteligência? Simples: pela limitação do pensamento.

Num primeiro momento há a definição do que é correto e incorreto pensar. Combinado a isso há a total intolerância com o incorreto, o qual é encarado quase como um ato criminoso. George Orwell na sua distopia 1984 chamou isso de crimideia.

Definido qual seria o pensamento correto e qual seria o incorreto para determinado tema, como, por exemplo, na questão racial, onde o correto é ser a favor das cotas, caso você seja contra, independente da razão, você é um racista. O próximo passo é convencer toda a sociedade, e a você próprio, que quem é contra as cotas é realmente racista. Ayn Rand, escritora russa erradicada nos Estados Unidos, dizia que ao convencer um homem de que é errado pensar que uma flor vermelha é de fato vermelha, ele próprio se recriminaria e se envergonharia de ter pensado, mesmo que por um instante, que uma flor vermelha é vermelha. A partir daí, ele aceitaria que a flor vermelha, na verdade, é qualquer outra cor que lhe dissessem que seja. Já não mais questionaria, seu pensamento estaria limitado.

Interligado ao controle do pensamento está à subversão da linguagem, mais especificamente, mudar o sentido das palavras e expressões. Ainda explorando a questão racial – mas o conceito pode ser aplicado em qualquer outro tema – algumas expressões como “ovelha negra”; “situação está preta”; “da cor do pecado”; “cabelo ruim”; “lista negra”; “mercado negro” etc. são repreendidas como claro sinal de um racismo intrínseco à sociedade. Num malabarismo retórico as caracterizam como expressões racistas, as quais devem ser banidas e expurgadas do vocabulário cotidiano. E caso você insista em utilizá-las, você não passa, definitivamente, de um porco racista.

Todo esse estratagema criado combinado com as patrulhas ideológicas tem como objetivo mudar todo o mecanismo e estreitar o campo do pensamento. Ao esvaziar a mente e torná-la cada vez mais estúpida, preenchida apenas com palavras de ordem e lugares comuns, a aceitação de qualquer imbecilidade imposta pela militância – ou pelo Partido, dentro de um conceito gramsciano – é mais fácil. O pensamento deixa de ser livre, há uma uniformidade na maneira de pensar e com isso um declínio inevitável da inteligência.

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O politicamente correto te aprisiona dentro da sua própria mente, impedindo-lhe de explorar todo o potencial do pensamento humano e da linguagem, fazendo-o pensar de forma limitada, escassa e rudimentar. E isso não pode gerar outra coisa que não o emburrecimento geral da sociedade. Todavia, esse empobrecimento intelectual é algo intencional e planejado, como nos mostra Pascal Bernardin, no seu livro Maquiavel Pedagogo, ao citar a “Declaração mundial sobre a educação para todos”, de um simpósio realizado na Unesco:

“Enquanto uma geração não tiver recebido os ensinamentos de um currículo internacional padrão, todos raciocinarão segundo os velhos esquemas mentais que, por fim, são fatais para a humanidade.”

Pensar “segundo os velhos esquemas mentais” e ter livre pensamento é cultivar o individualismo, algo realmente abominável do ponto de vista daqueles que travam essa batalha contra a inteligência, como deixa claro John Dewey, um pedagogo americano que esteve à frente da “Revolução Pedagógica”, no seu início. Dewey, um socialista furiosamente contrário a todo individualismo disse certa vez:

“A última resistência do isolamento antissocial e oligárquico é a perpetuação da noção puramente individual da inteligência.

Assim, para Dewey, a socialização deve-se fazer acompanhar pela destruição da cultura, da instrução e da inteligência. Portanto, não poderá haver socialização sem a depreciação do pensamento individual, por isso, deve-se patrulhar o pensamento e enquadrá-lo no politicamente correto, que nada mais é do que o pensamento coletivo, uniformizado.

Entender os objetivos escusos é de vital importância no combate ao politicamente correto, porém, ter cuidado para não cair na vulgaridade do politicamente incorreto indiscriminado também é essencial na luta pela manutenção do pensamento verdadeiramente livre. A maior arma contra o politicamente correto não é o seu oposto, o politicamente incorreto feito de forma vulgar e irracional, é, na verdade, o livre exercício do pensamento, o cuidado em manter a sanidade mental. Orwell dizia que não é fazendo ouvir a nossa voz, mas permanecendo com a mente sã, que preservamos a herança humana. É exercitando diariamente o exercício do pensamento livre que poderemos proteger a inteligência, ela que só pode ser encontrada na individualidade dos homens, e não na sua coletividade. Nossa luta deve ser para preservar a liberdade. E liberdade nada mais é do que ter a liberdade de dizer que dois e dois são quatro. Admitindo-se isto, tudo o mais acontece.

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