Por causa da atual crise moral, ética e política nacional surgem comentários rasos e achismos diversos sobre as possibilidades de uma intervenção militar, muitos deles movidos por emoção sem nenhuma gota de razão. Assim, diante das recorrentes negativas do Comandante do Exército, General Villas Bôas, sobre tal possibilidade surgem as mais variadas teorias e acusações para explicar a passividade das Forças Armadas, onde as mais recorrente é a “falta de culhões” dos atuais comandantes militares, o “aparelhamento” do alto comando e outras “analises” que não aprofundam um palmo na reflexão sobre uma questão tão delicada.

Ao clamar por uma intervenção militar hoje recorrem a lembrança do 31 de março de 1964.

Mas, afinal, há alguma analogia entre o cenário atual e o contexto histórico que motivou os militares a saírem dos quartéis e tomarem o poder em 1964?

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O ponto de partida para entendermos as diferenças dos dois cenários é compreendermos que os militares não acordaram na manhã de 31 de março de 1964 e tomaram a decisão de intervir na política de forma unilateral.

Os militares não fizeram isso em 1964 e não farão agora. Vejamos alguns pontos que foram importantes e faltam agora:

a) apoio e clamor popular: só no dia 19 de março de 1964 a Marcha da Família com Deus pela Liberdade reuniu, em São Paulo, 500 mil pessoas — maior manifestação até então da história do país — pedindo intervenção militar. Hoje, tirando pequenos grupos, as manifestações não pediam e não pedem intervenção. Falta respaldo popular.

b) apoio da mídia: em março de 1964 grande parte da mídia era favorável a intervenção e pediam isso abertamente em editoriais e manchetes de capa de jornal. Precisamos nem comentar sobre nossa velha mídia nos dias de hoje? Falta apoio da opinião pública.

c) apoio da sociedade civil organizada: lá, diferente de hoje, as entidades civis, a Igreja Católica e grupos empresariais deram respaldo ao movimento. Hoje não há uma única sinalização neste sentido. Não há apoio da sociedade civil organizada.

d) líderes civis: o movimento de 31 de março foi um movimento cívico-militar, naquele tempo haviam líderes civis capazes e dotados de confiança popular, e que deram apoio imprescindível a intervenção — como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Adhemar de Barros, três presidenciáveis –, tanto é que foi o Congresso em 02 de abril que cassou Goulart, e não os militares. Nos faltam líderes civis com capacidade de mobilização nacional.

e) crise militar: esta talvez seja a maior diferença e a mais importante. Nada faz crer que se não houvesse a crise militar — em especial na Marinha com a insubordinação das praças — os militares teriam se movimentado em 31 de março, poderiam desencadear depois, mas não naquele momento. Portanto, apesar da crise institucional vivida, o que foi determinante para os militares foi a questão militar. Até mesmo Jango culpou o Almirante Aragão — e Brizola, este por outro motivo — pelo agravamento precipitado da crise. Hoje, diferente de 64, o clima é de total normalidade nos quartéis, com a hierarquia e disciplina em ordem.

f) possibilidade de um golpe de estado: o movimento de 31 de março de 64 é chamado por muitos — excluindo a esquerda — de Contrarrevolução ou Contragolpe, pois foi um movimento que impediu um golpe de caráter comunista — pelo menos em última instância –, o qual tudo indicava que seria deflagrado em 1º de maio daquele ano. Hoje o cenário é muito diferente, não há um risco claro de rompimento do estado “normal” da política brasileira. Nossos políticos só querem continuar fazendo o que vem sendo feito há pelo menos 30 anos, a roubalheira institucionalizada. O que não é normal é todo esse incômodo que vêm sofrendo.

g) por último, mas não menos importante, os reflexos causados pelos 21 anos no poder hoje nos quartéis é um fator desmotivador para qualquer ação militar neste sentido. Os militares estão há mais de 30 anos sendo caluniados e difamados por terem liderado o movimento cívico-militar de 31 de março que não parece lógico esperar deles por livre e espontânea vontade uma ação de mesmo sentido sem nenhum respaldo da sociedade. Além do mais, os militares ao longo da história republicana brasileira sempre detiveram — exceto por breves espaços de tempo — um papel importante dentro da política brasileira, fato esse que começou a mudar a partir de 1988 com a promulgação da Constituição Federal e teve um rompimento definitivo com a criação do Ministério da Defesa em 1999.

Por fim, os contextos históricos são totalmente diferentes, não há nem mesmo uma remota possibilidade de intervenção a curto prazo sem uma convulsão social que corte país de norte a sul. Que pode ocorrer, quem sabe, a depender do destino da Operação Lava-Jato, mas nem isso é garantido…

Ou seja, a única intervenção possível neste momento é a intervenção divina. Que Deus nos abençoe… e Brasil acima de tudo!

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