A carta aberta de José Mayer pedindo desculpas pelos atos perpetrados contra a figurinista Su Tonani é um retrato do perigo que corremos ao insistir em culpar um ser abstrato, neste caso a sociedade, para explicar atos de um indivíduo claramente identificado, no caso o ator.

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A blogueira a qual redigiu o testemunho de Tonani vagou entre os dois universos. Ela apontou o agente responsável pela a ação, dizendo nome e sobrenome, porém, não deixou de culpar a “sociedade” de forma sutil e velada, nas entrelinhas. Na esteira dela surgiu um movimento capitaneado por algumas atrizes, as quais vestiram camisa com os dizeres: “mexeu com uma mexeu com todas”, frase inerente ao movimento feminista, e aquelas que não postaram a foto com a camisa, fizeram a sua parte e compartilharam a hashtag: #ChegaDeAssédio.

Aqui encontramos duas questões que nos impede de enfrentarmos o problema de forma eficaz: (a) culpar a “sociedade machista” e (b) banalizar termos, neste caso o assédio. Vejamos:

Depois de acusar e apontar o autor dos atos inomináveis, o movimento seguiu um caminho no mínimo confuso, o que acabou chegando num coautor: a sociedade. Desta forma você subtrai parcela da culpa do indivíduo, o executor do delito, e divide com um ser imaterial. A “sociedade” por ser intangível não pode ser penalizada. E isso nos leva a uma discussão pouco eficiente e que não resolve o problema presente, pois a solução para corrigir um suposto defeito de uma sociedade demanda tempo, e até mesmo gerações.

Como essa discussão é abstrata e gira em volta do mundo das ideias, ela é desgastante e não gera resultados. Com isso o fato gerador de toda contenda simplesmente é deixado de lado junto com o indivíduo transgressor.

É claro que essa atitude, de culpar a sociedade, só poderia beneficiar o real culpado, o indivíduo. E neste caso não está sendo diferente. José Mayer certa altura na sua carta de desculpa diz:

“Tristemente, sou sim fruto de uma geração que aprendeu, erradamente, que atitudes machistas, invasivas e abusivas podem ser disfarçadas de brincadeiras ou piadas. Não podem. Não são. Aprendi nos últimos dias o que levei 60 anos sem aprender. O mundo mudou. E isso é bom. Eu preciso e quero mudar junto com ele.”

Está aí, depois de culparem, também, a sociedade pelos atos do ator, ele se sentiu no direito de culpar a, olha só !, a sociedade pelos seus atos! Ele diz que é fruto de uma “geração que aprendeu” a agir dessa maneira, ou seja, ele está dizendo que toda sua geração comete atos deploráveis como estes, e ele não tem culpa, afinal, ele “aprendeu” a agir assim.

Mayer deveria ser execrado depois desta carta que beira o escárnio, ele teve a desfaçatez de classificar seus atos como “brincadeiras de cunho machistas” sem a intenção “de ofender, agredir ou desrespeitar”. Em qual mundo passar a mão nas genitálias de uma mulher sem seu consentimento pode ser classificado como “brincadeira” de qualquer cunho? Só se for no Projacztão, local, conhecidamente, ninho de perversão e maus costumes. A culpa é unicamente de José Mayer, não dá para terceirizar sua responsabilidade, seria um desrespeito com a vítima. E é um erro diluir sua culpa, colocá-lo em segundo plano para atacarmos um ser irreal. Não tenha dúvidas de que puni-lo com o rigor da lei, não o deixando se evadir sob quaisquer justificativa, será muito mais eficaz do que redigir textões e promover campanhas de hashtag. Temos um culpado, que o puna.

O outro ponto é o esvaziamento dos termos, quando você banaliza algumas questões você terá que nivelar tudo que quer englobar com o termo. Por exemplo, a blogueira certa altura do texto cita:

“Qual mulher nunca levou uma cantada? Qual mulher nunca foi oprimida a rotular a violência do assédio como ‘brincadeira’? A primeira ‘brincadeira’ de José Mayer Drumond comigo foi há 8 meses. Ele era protagonista da primeira novela em que eu trabalhava como figurinista assistente. E essa história de violência se iniciou com o simples: ‘como você é bonita’.

Aqui cabe um adendo: se chamar uma mulher de bonita é um assédio, não sobrará um único pai de família livre neste país. Quase a totalidade dos homens ao cortejar sua atual companheira, muito provavelmente, a cercou com elogios como este. Isso não é assédio, é cortejo. Mas o problema maior é: se você engloba em “assédio” desde elogiar a beleza de uma mulher até os atos “pré-estupro”, como passar a mão nas genitálias, como se pune o “assédio”?

Assédio sexual é algo grave que deve ser reprimido, mas para isso precisamos ter uma clara definição do que é assédio. O uso indiscriminado do termo é perigoso, esvazia o debate e retira a percepção da gravidade do ato, quando este realmente for um assédio, afinal, tudo é assédio mesmo.

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